19/12/2008

Brasileiros são humilhados em Frankfurt

Cerca de três passageiros ficam diariamente retidos no aeroporto, obrigados a pagar multas

por Marsílea Gombata

Desde que a presidência rotativa da União Européia passou às mãos de Nicolas Sarkozy, em julho, o mundo se preparava para uma Europa mais fechada, com rigidez contra imigrantes. Isso tem se confirmado de forma até exacerbada. De um mês para cá, inflexibilidade excessiva tem marcado o tratamento aos brasileiros no Aeroporto de Frankfurt.

De acordo com agências de viagens e o próprio consulado do Brasil na cidade alemã, brasileiros em trânsito no aeroporto vêm sofrendo abusos, sendo obrigados a pagar multas além do normal, assinar papéis de deportação, tirar fotos, além de terem sua bagagem revistada e todo o dinheiro que possuem no momento confiscado.

As penalidades que vêm sendo adotadas são, segundo o consulado brasileiro em Frankfurt, "assimétricas" e diferem muito do modo como autoridades brasileiras tratam europeus. Passageiros que ultrapassaram o prazo de permanência do visto de turista de 90 dias – mesmo sendo um dia – são proibidos de embarcar. Depois de passar por interrogatório e revista das bagagens, acabam dormindo no chão do aeroporto e são obrigados a pagar nova passagem.

Foi o caso de Tacilerne da Cruz Silva, 48 anos. A costureira de Aparecida de Goiânia (GO) voltava de uma viagem pela Bélgica, de dois meses e 28 dias, quando fez conexão em Frankfurt para embarcar para o Brasil, com três amigas.

– Chegamos no dia 1º de dezembro, às 17h45, para um vôo às 20h – lembra. – Só fomos sair de lá no dia 2, depois das 21h. A alfândega nos parou, disse que estávamos ilegal e não poderíamos ficar naquele país. Todo o processo de pagar e assinar papéis foi muito humilhante.

Casos semelhantes ao de Tarcilene vêm ocorrendo sistematicamente: são cerca de três brasileiros retidos diariamente no aeroporto, de maneira considerada "indevida" por diplomatas brasileiros locais.

A agente Claudia Bomm, da Meridianis Travel, em Bruxelas, lembra que um dos primeiros casos dizia respeito a uma senhora de 62 anos, que ligava desesperada de 10 em 10 minutos para agência.

– Fizeram foto dela, tiraram digitais, abriram sua bagagem, pegaram utensílios – conta. – Ela acabou dormindo no chão e levaram os 800 euros que carregava.
Não há regras ou perfil para detenção. Há casos, por exemplo, de passageiros vindo do Japão com destino ao Brasil, sem desembarcar na Europa, também retidos.

O consulado crê num exagero nas ações das autoridades aeroportuárias, que não é recíproco em território brasileiro. E garante: agentes espanhóis e noruegueses têm monitorado turistas brasileiros que utilizam Frankfurt como conexão.

A TAM, segundo o corpo diplomático brasileiro em Frankfurt, está sendo especialmente penalizada. No último dia 2, autoridades aeroportuárias teriam realizado uma operação pente fino no desembarque do vôo procedente de São Paulo. Segundo consulado brasileiro, mais de 60% das malas foram abertas e revistadas, assim como os comissários. Outras companhias, como Lufthansa e Condor, não estariam sendo fiscalizadas com tanto rigor.

Fonte: JB

16/12/2008

1946: Editora Rowohlt lança livros de bolso

por Silke Bartlick

No dia 15 de dezembro de 1946, a editora alemã Rowohlt lançou no mercado uma nova coleção de livros de bolso, que deveria ser acessível a todo cidadão. Volumes eram impressos em papel jornal e custavam apenas 0,50 marco.

De todas as cartas que o escritor Kurt Tucholsky recebeu em vida, a que mais lhe tocou foi a de um estudante de Nurembergue. Gentilmente, o jovem fez suas reverências ao conhecido autor, para em seguida declarar que ansiava pela morte do escritor o mais breve possível: "Para que seus livros se tornem mais baratos, como os de Goethe, por exemplo".

O estudante não pôde no momento receber a "ajuda necessária", mas a curiosa carta serviu para que Tucholsky enviasse uma mensagem ao editor Rowohlt, que culminava no pedido direto: "Barateie nossos livros!"

Somente depois do suicídio de Tucholsky durante o exílio na Suécia, em dezembro de 1946, é que a editora acabou fazendo a sua vontade. Involuntariamente, diga-se de passagem. Os tempos de miséria do pós-guerra forçaram os editores a uma boa ação, para a sorte dos leitores do país.

As tipografias alemãs encontravam-se em grande parte destruídas, havia dificuldade em conseguir papel e uma produção de livros de forma ordenada parecia praticamente inviável naquele momento.

Impressão em papel jornal

Foi aí que Heinrich Maria Ledig-Rowohlt teve a fabulosa idéia de imprimir livros com papel jornal, aproveitando as rotativas já existentes nos periódicos. Assim, sua editora conseguiu colocar no mercado uma tiragem de 100 mil exemplares para cada título da nova série Rowohlts-Rotations-Romane (Romances da Rotativa Rowohlt – daí a sigla rororo), destinada especialmente ao povo ávido de leitura.

Cada exemplar era vendido por apenas 0,50 marco e assim a população alemã pôde entrar novamente em contato com obras retiradas do mercado durante os 12 anos do regime nazista. Os primeiros títulos da série foram Tufão, de Joseph Conrad, Adeus às Armas, de Ernest Hemingway, A Sétima Cruz, de Anna Seghers e O Castelo Gripsholm, de Kurt Tucholsky.

A editora obteve com o feito um sucesso absoluto de vendas. No entanto, os exemplares foram retirados do mercado em 1948, assim que a produção regular de livros pôde ser retomada.

Nova tentativa

Ledig-Rowohlt só resolveu dar continuidade ao projeto ao observar a série de pocket books durante uma viagem de negócios aos Estados Unidos. O velho Ernst Rowohlt, presidente da editora, descrevia assim o projeto:

"Nós imprimimos os volumes numa rotativa, utilizando, no entanto, papel jornal da melhor qualidade. E encadernamos o material através de um sistema especial. Isto garante uma durabilidade maior e os livros ficam mais finos."

A 17 de junho de 1950, surgiam no mercado os primeiros quatro livros de bolso rororo, ao preço de 1,50 marco e com uma tiragem inicial de 50 mil exemplares. As obras desta série eram Pequeno Homem, e agora? de Hans Fallada, O Livro da Selva, de Rudyard Kipling, O Castelo Gripsholm, de Tucholsky e Brighton Rock, de Graham Greene.

Ernst Rowohlt defendia a idéia: "Eu parto do princípio de que é importante ganhar novos círculos de leitores através de livros baratos, pois observei que, quando angariamos um novo leitor através de um livro barato, ele aos poucos vai sendo convencido a comprar outros livros que não são tão baratos assim".

As novas edições da Rowohlt haviam sido um sucesso desde o início e os livros de bolso nos anos 50 tornaram-se uma espécie de Fusca do mercado editorial. No entanto, a idéia de produzir mercadorias de massa a baixo custo para o povo não era unânime.

A capa extremamente colorida, a composição que não estava voltada para as necessidades do leitor e o corpo de letra muito pequeno faziam com que as novas edições de bolso parecessem suspeitas aos olhos dos intelectuais conscientes do valor da qualidade de um livro bem impresso.

Publicidade nos livros

Os maiores protestos foram desencadeados, entretanto, pela fusão da literatura com a publicidade, como por exemplo através de encartes com propagandas de créditos hipotecários e de cigarros encontrados dentro de todo livro de bolso.

Os textos publicitários de então procuravam ligar o produto que vendiam ao conteúdo das obras, como por exemplo no slogan – "Todos os homens deste livro fumam", que vinha inserido em O Sol Também se Levanta, de Hemingway.

A editora Rowohlt sustentou no entanto da melhor maneira a "vergonha cultural". Já em outubro de 1950, 620 mil livros de bolso rororo tinham sido vendidos. Em 1952, eram três milhões. Um ano mais tarde, o departamento responsável pelas edições de bolso tornava-se uma empresa subsidiária e independente da editora.

Com o tempo, cresceu gradativamente o número de editoras que produzem livros de bolso. Com a criação de séries especiais, também foram sendo conquistados novos públicos alvo. Alguns exemplos são as monografias com imagens ou a série Rowohlt Atual, a Raposa Vermelha para crianças ou a Rowohlt para Pais.

DW

15/12/2008

Saiba o que é o Acordo de Schengen

Inicialmente composto por cinco países, o Acordo de Schengen abrange hoje 25 Estados europeus. Entre eles, turistas não-europeus podem viajar com um único visto.

Assinado em 1985 por Alemanha, Bélgica, França, Luxemburgo e Holanda, o Acordo de Schengen permite o trânsito livre de cidadãos entre os países envolvidos.

Desde então, outros 19 países passaram a integrar o espaço Schengen: Itália, Portugal, Espanha, Grécia, Áustria, Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega, Suécia, República Tcheca, Estônia, Hungria, Letônia, Lituânia, Malta, Polônia, Eslováquia e Eslovênia. Apesar de já terem assinado o tratado, a Romênia e a Bulgária ainda não foram incluídas na zona de livre circulação.

Em dezembro de 2008, também a Suíça integrou o espaço ao abrir suas fronteiras terrestres aos cidadãos do bloco. Em 29 de março de 2009, deixará de haver controles também nos aeroportos do país. (jbn)

09/12/2008

A cegueira dos homens



“Estamos sempre mais ou menos cegos… Como custa tanto arranjar dinheiro numa emergência e, agora, de repente, saltam milhões! Onde estavam? Apareceram para salvar vidas? Não. Apareceram para salvar bancos”.

José Saramago, escritor.

07/12/2008

A hipocrisia dos países ricos

(Texto do Neto, diretor de criação e sócio da Bullet, sobre a crise mundial.)

Vou fazer um slideshow para você.

É comum, você já viu essas imagens antes.

Quem sabe até já se acostumou com elas.

Começa com aquelas crianças famintas da África.

Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele.

Aquelas com moscas nos olhos.

Os slides se sucedem.

Êxodos de populações inteiras.

Gente faminta.

Gente pobre.

Gente sem futuro.

Durante décadas, vimos essas imagens.

No Discovery Channel, na National Geographic, nos concursos de foto.

Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados.

São imagens de miséria que comovem.

São imagens que criam plataformas de governo.

Criam ONGs.

Criam entidades.

Criam movimentos sociais.

A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em Bogotá sensibiliza.

Ano após ano, discutiu-se o que fazer.

Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se sucederam nas nações mais poderosas do planeta.

Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo.

Resolver, capicce?

Extinguir.

Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta.

Não sei como calcularam este número.

Mas digamos que esteja subestimado.

Digamos que seja o dobro.

Ou o triplo.

Com 120 bilhões o mundo seria um lugar mais justo.

Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse.

Não houve documentário, ONG, lobby ou pressão que resolvesse.

Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da cartola 2.2 trilhões de dólares (700 bi nos EUA, 1.5 tri na Europa) para salvar da fome quem já estava de barriga cheia.

P.S. É uma pena que esse texto só esteja em blogs e não na mídia de massa, essa mesma que sabe muito bem dar tapa e afagar. Se quiser, repasse, se não, o que importa? O nosso almoço tá garantido mesmo...

02/12/2008

Calendário Histórico

1936: Thomas Mann é expatriado

por Rachel Gessat

O escritor Thomas Mann, sua esposa e os filhos mais novos foram expatriados da Alemanha nazista em 2 de dezembro de 1936.

No jornal Völkischer Beobachter (Observador Popular), os nazistas publicavam as chamadas listas de expatriados. Os nomes de Thomas Mann, sua mulher e seus filhos mais novos constavam da lista número 7. Dos mais velhos – Erika e Klaus – já havia sido tirada a cidadania alemã.

Ascensão nazista não causou supresa

Para Thomas Mann, a situação não causava surpresa: "Certamente eu desafiei a cólera dos detentores do poder. Não apenas nos últimos anos, através da minha distância e da expressão de meu horror a eles. Muito antes disso eu enfrentei esse desafio porque precisava; pois antes da burguesia alemã desesperada de hoje, eu já havia percebido há muito quem e o que subia ao poder".

Thomas Mann sabia exatamente do que falava, por ter ele próprio apoiado por muito tempo idéias conservadoras, nacionalistas e antiparlamentares, tendo passado a defender posições democráticas somente durante a República de Weimar (1919–1933).

Em 1930, Thomas Mann fez em Berlim um discurso, apelando "à razão alemã" e apelando à burguesia e às forças socialistas para que rejeitassem o fanatismo fascista. Suas palavras foram interrrompidas por tumultos organizados pela polícia nazista e o escritor foi obrigado a abandonar o recinto pela porta dos fundos.

Decisão de não voltar ao país

A tomada de poder por Adolf Hitler surpreendeu Thomas Mann durante uma viagem para dar palestras pela Holanda, Bélgica e França. Ele decidiu então não mais voltar ao país. Seu exílio duradouro começava aí. "Não sonhei e não cantaram em meu berço que eu acabaria passando meus melhores dias como emigrante, banido de casa e condenado a um indispensável protesto político. Nasci mais para ser um representante do que para ser mártir", confessava.

Por muito tempo ainda, Thomas Mann continuou tentando através de seu silêncio evitar uma ruptura definitiva com o país e a quebra do contato com o público alemão. Apenas em 1936 ele tomou uma posição clara em relação ao regime. A gota d'água foi um texto publicado pelo diário suíço Neue Zürcher Zeitung, que tentava imprimir a Mann traços anti-semitas.

Silenciar perante o mal irreparável?

Somente então Thomas Mann quebrou definitivamente seu silêncio: "Um escritor alemão, acostumado à responsabilidade através da língua, deve agora silenciar? Silenciar absolutamente perante o mal irreparável, que no meu país foi e é praticado em corpos, almas e espíritos, no direito e na verdade, na humanidade e na pessoa? Não foi possível. E assim vieram as manifestações de minha parte contra o programa nazista. Minhas posições contrárias a ele ficaram inevitavelmente claras, tendo levado ao absurdo e ridículo ato de meu expatriamento".

Após ter perdido a nacionalidade alemã a 2 de dezembro de 1936, Thomas Mann permaneceu de início na Suíça, tendo emigrado mais tarde para os Estados Unidos. O Ministério de Esclarecimento Popular e Propaganda do regime nazista anunciava em janeiro de 1937: "Thomas Mann deve ser apagado da memória de todos os alemães, por não ser digno de carregar o nome de alemão".

Indignado, o escritor declarou a respeito dos nazistas: "Acusam-me de ter insultado a Alemanha, ao ter-me declarado contra ela? Eles são incrivelmente ousados a ponto de confundir a si próprios com o país. Talvez não esteja longe o dia em que o povo alemão vai preferir qualquer coisa menos ser confundido com eles".

01/12/2008

Desinformação sobre o outro país é comum a Brasil e Alemanha

Os brasileiros sabem pouco sobre a Alemanha e os alemães sabem pouco sobre o Brasil. Para correspondentes internacionais, a situação reflete a escassez de notícias sobre o país parceiro na imprensa local.

"Você poderia me indicar os nomes de algumas empresas alemãs?", saiu certa vez perguntando a pessoas nas ruas de algumas cidades brasileiras o correspondente Jens Glüsing, da revista Der Spiegel. Os editores do principal semanário alemão haviam encomendado a enquete ao jornalista para uma matéria especial sobre a fama dos produtos made in germany no mundo.

Glüsing, entretanto, ficou estupefato diante do silêncio de seus entrevistados, conforme relatou no debate sobre "A imagem do Brasil e da Alemanha na imprensa e na mídia do outro país", durante o simpósio "As Relações Culturais entre Brasil e Alemanha", realizado nos dias 24 e 25 de novembro no Instituto Goethe de São Paulo. Sobre a presença do Brasil na imprensa alemã falou Sílvia Bittencourt, correspondente da Folha de S.Paulo na Alemanha.

"O que você acha de Volkswagen, Mercedes, Bosch, Basf, Bayer?", provocava Glüsing. "Não, essas são empresas brasileiras" era a resposta que o jornalista recebia muitas vezes dos entrevistados. Ele atribuiu a reação ao fato de essas empresas já estarem estabelecidas no Brasil há tanto tempo que as pessoas as identificam como nacionais. Glüsing lembrou que a primeira menção que recebeu de uma empresa alemã foi à BMW, montadora sem fábrica no Brasil.

O desconhecimento sobre a Alemanha reflete a escassez de notícias sobre o país nos meios de comunicação brasileiros. As poucas que aparecem são marcadas por clichês ou tratam de esportes e curiosidades, ganhando política, economia e cultura ainda menos espaço. "O interesse pela Alemanha já foi maior, mas o fim da Guerra Fria, a reunificação da Alemanha e a globalização tiraram o país do noticiário", afirmou Glüsing.

O mesmo acontece em relação ao Brasil na imprensa alemã, ressaltou Bittencourt. Durante os regimes militares, os países da América Latina ganhavam destaque na mídia devido aos movimentos de resistência e às guerrilhas. "Um ex-correspondente alemão em Buenos Aires avaliou que os jornalistas tinham naquela época uma 'visão romântica' do conflito político-social", comentou Bittencourt.

Depois, a imprensa alemã afastou seus olhos da América Latina. Nem mesmo a primeira eleição direta para presidente no Brasil, em 1989, mereceu atenção especial. "Mas temos de considerar que o segundo turno entre Collor e Lula ocorreu poucos dias depois da queda do Muro de Berlim e, com isso, as redações alemãs estavam todas voltadas para esse momento histórico e seus desdobramentos para a Alemanha e o mundo."

Os dois palestrantes forneceram vários exemplos que retratam o desinteresse e o desconhecimento mútuo sobre o outro país. Segundo Glüsing, o jornal O Globo é o único veículo brasileiro a manter um correspondente próprio na Alemanha; os demais são colaboradores. Por outro lado, somente 6% dos correspondentes alemães estão na América Latina, ou seja, menos até que na África, informou o jornalista da Der Spiegel.

Bittencourt pesquisou a presença brasileira no jornal de maior circulação na Alemanha, o sensacionalista Bild, e verificou que 80% do material encontrado refere-se basicamente a jogadores de futebol. As demais matérias focavam clichês e histórias curiosas.

Glüsing fez também uma busca na internet por citações de personalidades alemãs em páginas brasileiras e igualmente chegou a resultados que reforçam uma imagem baseada em clichês, esporte e curiosidades. Hitler e o nazismo são os temas mais relacionados à Alemanha, seguidos pelo ex-piloto de Fórmula 1 Michael Schumacher. Com número bem menor de registros, surge depois a chanceler federal Angela Merkel, acompanhada de perto do filhote de urso polar Knut, estrela do zoológico de Berlim.

Glüsing ressaltou que, por um lado, o desinteresse da mídia brasileira pela política alemã reflete o recente desinteresse desta pelo Brasil. Entre suas duas viagens ao Brasil como chanceler federal, Gerhard Schröder deixou um intervalo de seis anos e ainda comportou-se sempre de forma arrogante, disse o jornalista.

Num incidente com seguranças do chanceler em Copacabana, estes atacaram fotógrafos "com uma truculência com a qual eles não estavam acostumados desde o fim do regime militar e da censura", lembrou Glüsing. Já a atual chanceler federal, Angela Merkel, visitou o Brasil pela primeira vez este ano, mas ficou apenas um dia e meio no país.

O grande momento recente da Alemanha na mídia brasileira foi em 2006, devido à Copa do Mundo. Glüsing contou que havia ficado chocado em 2002 com os clichês do nazismo e do militarismo alemão explorados pela imprensa brasileira para retratar a seleção alemã quando esta foi à final com o Brasil no mundial do Japão.

Quatro anos depois, os jornalistas brasileiros descobriram uma Alemanha completamente diferente e teceram elogios sem fim a um país moderno, educado e alegre. Mas foi só. Após a Copa, a Alemanha voltou a sair do noticiário.

Bittencourt, por sua vez, disse que o Brasil está mais presente na televisão em documentários do que nas notícias e, devido aos horários de exibição, a audiência costuma ser pequena, daí a percepção de que o Brasil aparece nas telinhas menos do que de fato aparece.

A correspondente da Folha de S.Paulo destacou que o Brasil tem ganhado maior atenção na imprensa escrita. "Os brasileiros na Alemanha não se dão conta disso, pois o Brasil tem aparecido geralmente dentro de matérias que não tratam exclusivamente do país. Há sempre referências ao Brasil nas notícias sobre a crise financeira mundial e questões energéticas, por conta do etanol e outros biocombustíveis."

Bittencourt acrescentou que a eleição de Lula em 2002 fez a imprensa alemã acompanhar mais o Brasil, a sua política e o seu crescimento econômico dos últimos anos.

M. Armin Weichert