26/08/2007

"Call Center"

Quando o livro "Cabeça de Turco", de Günter Wallraff, foi lançado pela Editora Globo em 1990, eu ainda nem pensava vir morar na Alemanha.

Na época, li o livro e fiquei fascinada com a pesquisa de campo feita pelo autor. Aos 64 anos, Wallraff mergulhou dois anos no trabalho investigativo que resultou num estrondoso sucesso em 1985. Passou a usar lentes de contato escuras, para esconder seus olhos azuis, peruca de cabelos pretos, bigode, documentos falsos e 'aperfeiçoou' o alemão sem preposição e quebrado, falado pelos turcos, em sua maioria vindos da Anatólia, região turca, povoada por camponeses analfabetos. Na obra, ele expõe a forma perversa como eram tratados os trabalhadores turcos na Alemanha.

Outro trabalho de Günter Wallraff que incomodou o mundo ‘limpo’ da sociedade alemã foi o livro ‘Fábrica de Mentiras’ baseado em experiência como editor do Bildzeitung, jornal mais vendido na Europa, e conhecido pelas manipulações e mentiras usadas para destruir ‘inimigos’ potenciais. (nada a ver com a mídia brasileira, principalmente a revista ‘Veja’).

Recentemente, o autor deu uma entrevista ao Deutsche Welle, onde comentou seu novo livro 'Call Center' baseado em trabalho de campo num Call Center.

Na entrevista, ele faz um alerta sobre a metamorfose pela qual passa a sociedade alemã. Comenta que a discriminação na Alemanha não está mais baseada na origem do indivíduo, mas sim na classe social. Evidentemente, discordo. Basta ler os jornais do último final de semana para ver que a violência no leste alemão, contra 8 indianos, não arrefeceu o preconceito de raça. Acredito que os alemães, em geral, acrescentaram mais uma razão, na longa lista, para sentir mais preconceito.

Mas o que quero mesmo escrever é sobre seu novo livro.

Wallraff conta que a razão que o levou a iniciar a pesquisa foi o encontrei com um colega, que trabalhou um tempo num Call Center. Ele estava desempregado e precisando urgente de dinheiro. Seus relatos o animaram a entra no ramo. E os resultados o surpreenderam.

O autor constatou que os Call Centers tem duas faces. Ao mesmo tempo em que são umas pragas na sociedade, por perturbarem pessoas ao telefone, induzindo idosos a comprar, geram novos postos de trabalho para uma mão de obra desqualificada e sem experiência.

“Havia muita gente feliz de ter conseguido um emprego, gente há muito tempo desempregada – os call centers aceitam todo mundo. Mas estatísticas mostram que, de mil pessoas que são contratadas, apenas dez, talvez 20, agüentam o trabalho por mais de meio ano, tamanho é o desgaste. Ainda assim, vieram reações divididas (sobre o meu trabalho). Teve gente que me escreveu fazendo acusações, defendendo seu emprego – recebo esse tipo de carta. Mas que tipo de emprego é esse, onde trapaceiros são formados profissionalmente?”

Como o autor se especializou em infernizar o grande empresariado alemão, o Deutsche Welle perguntou-lhe qual foi o rótulo que lhe deram que mais o irritou até agora.

Ele, bem humorado, respondeu que foram muitos, mas acrescentou que o que mais o intranqüiliza é receber elogios da imprensa. “Quando começam a me elogiar muito, me pergunto: será que me deixei levar? Quando o Bild Zeitung me chama de ‘caneta do diabo’, me sinto praticamente condecorado.”

O autor acrescenta que é importante para o respeito ao trabalho de pesquisa, na área sociológica, sobre os deserdados, ter o inimigo correto.

“Não tenho nenhum inimigo eterno. Sempre torço para que um dia se tornem civilizados ou democráticos. Acredito na capacidade de mudar, não só das pessoas, como também de estruturas sociais. E mesmo um jornal tão desumano como o Bild (Veja, Estadão e Folha, escrevo eu) – que ainda pode ser chamado de Comitê Central da Difamação – poderia, talvez, se desenvolver de forma diferente num outro contexto social, e, pelo menos, se liberar dessa agressividade.”

Fazendo um adentro privado para mostrar o quanto o mundo é pequeno. O fotógrafo que registrou os dois anos de trabalho do Wallraff como turco, Günther Zint, é pai da melhor amiga de minha filha. Elas se conheceram logo que viemos morar na Alemanha e estudaram na mesma escola. Hoje, a amiga de minha fiha está terminando o curso de línguas orientalistas (turco e árabe) na universidade.

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi Glória
que boa surpresa ver que você tem um blog literário. Darei umas passadas aqui de vez em quando. Abraço. Zé

BETTINA RIFFEL disse...

oi gloria. nao conhecia teu blog. achei-o procurando infos de Gunter Wallraff; Adorei teu blog. Sou jornalista e conheço Gunter Wallraff pessoalmente ha alguns anos. Agora dia 23 de setembro to indo pra alemanha , se puderes fazer contato comigo, agradeço ;-)
BETTINA RIFFEL
skipe bettinaer
msn bettinaelisa@hotmail.com