26/08/2009

Falando sobre o que a Igreja representa para o desenvolvimento da humanidade


Acabo de ler 'Tête-a-tête, vida e amor de Simone de Beauvoir e Sartre'.

Livro muito bom. Depois de começar não dá vontade de parar.

Ontem mesmo comecei a ler A vida de Galileu, de Bertolt Brecht.

E lembrei de um email que recebi em 06 de agosto desse ano.

O que esses dois livros, o email e a Igreja - no título - têm em comum ?

No 'Tête' reli sobre o Manifesto a favor da legaligação do aborto, elaborado por Simone e seu grupo de feministas, e assinado por 343 francesas, inclusive Caterine Deneuve, Margarete Duras e outras. No Manifesto elas afirmam ter feito aborto e pedem a proteção do Estado para a prática do mesmo. 4 anos depois do Manifesto ter vindo a público, o aborto foi legalizado na França.

Na peça de teatro de Brecht, vê-se Galileu dizendo que ou Deus existe dentro da gente ou não existe. E que o 'queimado-vivo' ( Giordano Bruno ) foi queimado por não ter podido provar o que dizia.

Galileu provou que era a terra que girava em torno do sol e não o contrário. Mas mesmo assim, a Igreja o calou.

Reproduzo o email do senhor Abrão, revoltado com a posição da Igreja, que se acha no direito de decidir sobre a vida das pessoas:

Senhora Leite,
Bem que a senhora deveria protestar em seu Blog, em nome de uma legião de divorciados da qual faço parte, contra a intransigência desse PAPA em não admitir o divórcio e nem o aborto. Ora, são eventos inevitáveis. Os tempos mudaram.
Cordialmente,
Abrão'"
Observo o quanto a Igreja Católica ( mas hoje tem outras Igrejas ) faz pressão contra o direito da mulher decidir o que fazer com o seu corpo. Ela interfere na vida cotidiana das pessoas. Vejo o quanto ela pode ser maléfica.

O que seria de nós se a Igreja Católica tivesse vencido todas as batalhas contra o desejo da humanidade de avançar?

Num determinado momento, Galileu, conversando com Sagredo, diz:

"... Sim senhor, eu acredito na força suave da razão. A longo prazo, os homens não lhe resistem, não aguentam. Ninguém se cala indefinidamente (Galileu deixa cair uma pedra de sua mão), se eu disser que a pedra que caiu não caiu. Não há homem capaz disso. A sedução do argumento é grande demais, ela vence a maioria, todos, a longo prazo. Pensar é um dos maiores prazeres da raça humana."

Eu há muito me distaciei, se é que algum dia estive próxima de Igrejas.

Senhor Simão, a Igreja perderá mais essa no Brasil. A longo prazo, ela perde a causa ou os fiéis. O que só lhe restará ficar falando só.

22/08/2009

Eu vi com esses olhos

E eu tive medo.

Plagiando a doida da Regina Duarte e a Danusa Leão, eu digo: Sim, eu tive medo. Eu tive medo, mas não do PT e o Lula – o indivíduo mais democrático na face da terra -, mas dos nazistas. Eu nunca tinha vivenciado o ataque de um grupo nazista. E isso me deu medo.

Vamos pelo começo.

Semana passada, enquanto ajudava a distribuir jornais do partido Die Linke, do qual sou filiada, um nazista se aproximou. Saíra naquele instante do metrô e, com aquela cara ameaçadora de todo covarde, ficou nos espreitando a uns dois metros de distância.

Sussurrei a um colega, perguntando o que devíamos fazer. Ele respondeu que tínhamos que esperar para ver quais as intenções do brutamontes solitário.

O brutamontes no entanto pediu-nos um balão, vejam só, um balão!, e correu para alcançar um ônibus que saía. Se estivesse acompanhado teria tido outro comportamento, estou certa.

Hoje, saí de casa por volta das dez em companhia de minha cachorra. Fomos de bicicleta ao encontro dos colegas do partido num outro bairro.

A manhã, ensolarada e com uma leve brisa, prometia. No caminho fui pensando o quanto eu gostava de viver na Alemanha, minha segunda pátria.

O ponto do encontro era em frente aos Correios. Éramos 4. Num determinado momento, estava eu atrás da 'Infotisch', mesa em que colocamos os jornais e panfletos, lendo o material que distribuíamos, quando um colega, vindo da esquina (10 metros de onde estávamos) nos informou: um grupo de nazistas se aproxima.

Imediatamente nos colocamos de prontidão. Os 6-7 indivíduos nos cercaram. Pensei: vou sair do círculo. mas antes pegarei minha máquina fotográfica. Fingi fotografar meus colegas, quando na verdade os fotografava.

Eles começaram a distribuir panfletos de maneira agressiva. Uma colega turca, falando alto, deu-lhes a resposta. Ao entregar os folhetos do Die Linke dizia de maneira clara e em bom tom as palavras “Vamos lutar contra esses nazistas”.

Três deles cruzaram a rua de duas pistas em direção a uma padaria. Em questão de segundos estavam dando porrada em alguém lá dentro. Minha colega começou a gritar “Polícia, polícia, nazistas, nazistas. Telefonou para a polícia.




Nisso, os três nazistas voltaram em nossa direção. Um estava com um lado do rosto coberto de sangue. O que estava à nossa esquerda gritou “Vamos embora”. Caminhei rápido e fotografei todos eles de costas.

Corri para a padaria. E fotografei sacos espalhados pelo chão e um negro atrás do balcão com um pano no rosto. Comecei a tossir e a lacrimejar instantaneamente. Os covardes tinhas lançado spray de pimenta no rosto do cidadão negro.







20 minutos decorreram – fiquei marcando – até a polícia, que normalmente chega em 3-5 minutos, aparecer. Uma eternidade para a emergência. Um policial pediu o depoimento de minha colega turca com detalhes.

Para resumir: ele não teve interesse em ver as fotos que tirei. E ainda me deu um aviso: Não publique na internet. É contra a lei. Você pode ser presa!

Como já era meio-dia, resolvi ir embora. Ao passar pela rua atrás dos Correios, vi três carros de polícia parados num estacionamento. Os policiais conversavam sabem com quem?

Adivinhou quem disse, com os NAZISTAS.

A paz entre eles parecia o chá das 4:00 da rainha Elizabete.

Voltei voando e chamei um colega que tinha uma máquina com teleobjetica e que chegou depois dos nazistas terem ido embora.

Porém, ao chegarmos, eles tinham se dispersado.

Eu agora posso dizer que eu vi com mesmos próprios olhos a promiscuidade entre o nazismo e a polícia alemã.

21/08/2009

Europa tenta nos transformar em depósito de lixo

Lixo enviado ilegalmente ao Brasil retorna à Grã-Bretanha

Parte do lixo exportado ilegalmente chegou à Grã-Bretanha nesta sexta-feira

Os mais de 70 contêineres com lixo britânico que foram exportados ilegalmente ao Brasil em julho chegaram nesta sexta-feira ao porto de Felixstowe, na Grã-Bretanha.

De acordo com a Agência Ambiental da Grã-Bretanha, o barco que levava os contêineres, o MSC Serena, aportou em Felixstowe às 10h30, hora local (6h30, hora de Brasília).

Outros cerca de 19 recipientes estão a caminho do país em outra embarcação que deve chegar só a partir da próxima terça-feira.

A Agência já tinha iniciado uma investigação para descobrir como as 1,4 mil toneladas de lixo, supostamente origem hospitalar e doméstica, foram parar no Brasil.

Ao longo da próxima semana, as autoridades ambientais britânicas vão desinfetar os contêineres para examinar o seu conteúdo.

Em seguida, depois que forem recolhidas provas suficientes, uma empresa especializada deve destruir o lixo.

Presos

Andrew Higham, diretor da unidade de crimes ambientais da agência, disse que a entidade encara com "extrema seriedade" a exportação ilegal de lixo.

"A Grã-Bretanha assumiu uma forte liderança mundial para acabar com o comércio ilegal de lixo, com o objetivo de proteger as pessoas e o meio ambiente", afirmou.

"Não vamos permitir que nosso lixo seja despejado em países em desenvolvimento."

Pela lei britânica, o país pode exportar restos apenas para reciclagem.

Em julho, três homens foram presos na cidade de Swindon, no sul da Grã-Bretanha, em conexão com o caso, mas foram libertados sob pagamento de fiança até que se avance nas investigações.

A pena máxima por exportar lixo ilegalmente é uma multa sem limite pré-definido ou até dois anos de prisão.

Fonte: BBC

19/08/2009

Volta a subir número de requerentes de asilo político na Alemanha

O número de requerentes de asilo político voltou a aumentar na Alemanha em julho. Segundo informações divulgadas pelo Ministério alemão do Interior, nesta terça-feira (18/08), em julho foram apresentados mais de 2.500 pedidos de asilo no país, o que representa um aumento de 30% em relação ao mês anterior, e de 41% em relação a julho de 2008. O maior número de requerimentos foi apresentado por cidadãos procedentes do Iraque e do Afeganistão, informou o ministério.

14/08/2009

Alemanha: palavras nazis só noutros idiomas

Supremo anula sentença que condenou homem por envergar camisola com a expressão «Blood&Honour»

O Supremo Tribunal Alemão decidiu esta quinta-feira que a utilização de termos nazis, desde que em idiomas estrangeiros, não viola a Constituição, ao contrário do que sucede com toda a terminologia em alemão relativa ao III Reich, referem as agências internacionais «EFE» e «AFP».

O tribunal revogou uma sentença de 2005, lavrada pela Audiência Provincial de Gera, no leste do país, que tinha multado um homem por envergar uma camisola estampada com a frase «Blood & Honour», nome também usado por um grupo neo-nazi proibido E inspirada na frase da juventude hitleriana «Blut Und Ehre» («Sangue e Honra»).

Os juízes entenderam que a conotação nazi deriva mais do idioma do que das palavras. Quando traduzida, a frase «tem tem um efeito de alienação», não podendo ser punida.

O Supremo devolveu o caso ao tribunal de primeira instância, já que o arguido ainda poderá ser condenado pela utilização de símbolos nazis.

A lei alemã proíbe a exibição de símbolos ou frases nazis.

Segundo o presidente da Câmara, Jörg Peter Becker, o tribunal tem consciência de que a sentença favorece os movimentos neo-nazis, mas adverte que a ideologia não se erradica apenas com o código penal.

Fonte: Diário de Portugal

12/08/2009

Contribuição mineira à Lei do Pito (Cigarro)

Em versão We are the world

Chico Buarque: "O meu mundo é o dos músicos"

Bem-humorado e encantador, Chico Buarque continua, aos 65 anos, apaixonado pelo futebol, pela música e pelos livros. Conversa no Rio de Janeiro com o músico-escritor-poeta de olhos azuis (ou verdes?), a pretexto do seu romance "Leite Derramado". (vídeos no fim do texto)

Ana Cristinma Leonardo - Expresso/Portugal

Na varanda em noite de lua cheia, a vista da varanda da casa de Chico Buarque, no Alto Leblon, Rio de Janeiro

Para mim, os olhos dele são verdes. Há quem conteste. E, a crer nas informações do jornalista brasileiro Sidney Garambone, nem os seus familiares se conseguem pôr de acordo: uns dizem que são azuis, outros que são verdes, alguns afirmam que é conforme. O facto é que, quando o 'pivete' Chico Buarque foi preso por 'puxar' um carro aos 17 anos, o 'policial' que lavrou o auto, meio confundido, terá escrito "cor de ardósia". Em Julho passado, durante a conversa que manteve com Milton Hatoum (um dos melhores escritores do Brasil, autor, entre nós, da Cotovia), no âmbito da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), ele estava demasiado longe para eu poder tirar teimas. Mas agora, olhos nos olhos (como na canção cuja letra leva a sua assinatura), no seu apartamento do Alto Leblon com vista aérea sobre o Rio de Janeiro, iria jurar que são verdes.

A incansável Miriam Cutz, da TurisRio, avisara-me que "para chegar a casa do Chico" levaria mais ou menos uma hora. Pus hora e meia. Entrei no táxi, dei a morada, o motorista accionou o GPS e pouco depois, mais ou menos a meio de Botafogo, disparou um fumo branco. Rendido à evidência de um motor prestes a gripar, o sujeito encostou a viatura e eu fiquei apeada. Apanhei um segundo táxi. O motor não chegou a aquecer: mal pronunciei "Alto Leblon", o taxista informou-me que não fazia a menor ideia de como lá chegar. Ainda insisti. Em vão. O terceiro taxista conhecia o bairro, porém desconhecia a rua. E, quase uma hora passada, o problema era precisamente encontrá-la. Interrogados, sem êxito, vários transeuntes, o motorista desesperava comigo: "Isto já parece São Paulo! Ninguém sabe de nada..." Por fim, o porteiro de um dos vertiginosos prédios da zona veio em nosso socorro. A meio da explicação, o motorista do táxi interrompeu os vira-à-esquerda-e-à-direita e rematou: "Ah! Mas isso é a rua do Chico!"

A entrevista fora marcada em Portugal. Motivo: o lançamento quase simultâneo, cá e lá, do romance "Leite Derramado" (Dom Quixote). Aos media brasileiros, Chico Buarque disse nada. Falou apenas na FLIP, com a casa a vir por fora. Falou de literatura, mas também a favor de várias comunidades locais cujos moradores se manifestaram nas ruas de Paraty contra o condomínio multimilionário de Laranjeiras, que, garantem, os impede de chegar à praia.

No momento em que chego à porta da sua casa no Rio (que o próprio abre) ainda não li o que sobre ele escreveria Milton Hatoum: "Não foi fácil participar de uma mesa com Chico Buarque (...) O assédio a um dos artistas mais talentosos e queridos do Brasil inibe qualquer um." Sem dúvida. Mas a verdade é que acabou por ser fácil. Pelo menos para mim (e arrisco que também para Hatoum). A sala é luminosa e despojada, e um piano que já pertencera ao pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, ocupa grande parte do espaço. Uma varanda enorme oferece um plano de conjunto dos prédios, das ruas, dos morros e da água. É aí que a conversa começa. Depois, a oficial, de gravador ligado, tem lugar lá dentro, entre cafés e cigarros. Só eu é que fumei. Durante quase duas horas. Mal apanhava um intervalo, Chico assobiava baixinho.

Todos os brasileiros a quem disse que vinha falar consigo comentavam, como que emocionados: "Oh! Meu Deus, vai entrevistar o Chico!"

Bom, nesse caso você conheceu as pessoas certas (risos). Porque isso não é assim. Se, por um lado, existe uma certa boa vontade, gente que gosta porque é simpático, por isto e aquilo, existe também o contrário...

Talvez, mas o que pude confirmar, até pela forma de tratamento, "o Chico", é que o seu estatuto é de ídolo. Isso incomoda-o?

Não penso muito nisso, não. Me incomoda um pouquinho, por exemplo, que a gente esteja falando de um livro e que o autor se ponha à frente. Acho que o livro é mais importante do que o autor. Foi por isso que aqui no Brasil não dei entrevistas, para não tirar proveito dessa eventual simpatia. Porque existe. Agora, existe na mesma medida e com a mesma intensidade com que existe uma objecção e antipatia muito grandes.

Esses dois pólos estarão ligados, também, à sua imagem política...

Será, mas eu há muito que renunciei a qualquer relevância política. Isso tinha a ver com a ditadura, a pressão, a falta de liberdade, quando a música popular e os artistas representavam um papel fora do normal... Era uma situação estranha.

Apesar do que diz, em Paraty foi para si que os manifestantes apelaram.

Em podendo me manifestar, não me recuso. Só que a minha voz não tem importância nenhuma. Ou tem a importância que tem. Não se trata de um desligamento da política ou das questões sociais, continuo atento ao que se passa no meu país. Se trata de um recolhimento, por considerar que há pessoas mais próximas desses problemas. Há políticos. Por exemplo, na questão ambiental, a Marina Silva (ex-ministra do Meio Ambiente de Luiz Inácio Lula entre 2003 e 2008, quando apresenta a demissão por divergências com o governo). Ela pode falar sobre os caiçaras de Paraty muito melhor do que eu. Escreve uma coluna num jornal, é senadora... Porque é que eu vou dar entrevistas sobre isso? Não vejo muito sentido. Agora, se for solicitado, naquele momento farei.

E eles sabiam disso...

Talvez vejam em mim um vínculo maior com essas causas sociais. Mas, depois, o que li nos jornais? Disseram candidamente que foram falar comigo porque a imprensa estava voltada para mim e assim chamariam mais a atenção. Não por ser eu, mas porque era para onde a imprensa estava olhando.

Está a querer dizer que a nova geração vai ter consigo não por si mas por ser famoso?

Exactamente. No caso, foram pragmáticos (risos). Para onde é que as câmaras estão apontando? Então é para aí que vamos.

Trocando a política pela literatura. No longo caminho para cá (risos) tive tempo para reformular uma pergunta. Ia perguntar-lhe porque é que um letrista - e muita gente não hesitaria em chamar-lhe poeta de canções - prefere a prosa. Mas depois pus-me a pensar que muitas das suas letras contam histórias.

Embora as minhas letras não pretendam ser poesia, na verdade as minhas músicas que contam histórias são poucas. É que às vezes as canções que ficam são ligadas ao teatro. Há muito isso. Depois tornam-se independentes, mas na origem foram escritas para cenas de teatro, personagens teatrais e tal, e então elas são mais narrativas. Quando ganham vida própria, as pessoas não ligam uma coisa à outra. Mas eu nunca escrevi poesia. Assim como nunca escrevi uma letra de música sem música. A minha letra é feita em função da música. Sou músico antes de ser letrista. Então, para mim, escrever prosa é uma coisa à parte, não tem nada a ver com a literatura da canção. É outra arte, outra maneira de lidar com as palavras.

O letrista nunca escreveu poemas?

As poucas coisas que fiz eram de garoto, muito jovem. Poemas com formas fixas, sonetos. Até brinco com isso, fazer sonetos de circunstância. Agora, eu não sei escrever. Não me sai. Se eu me quiser sentar para escrever poesia, não sei por onde começar. Sou condicionado pela música. A métrica será a métrica da música. As rimas serão em função da música.

A música antecede...

Sempre! Sempre antecede a letra. Tenho muitos trabalhos feitos de parceria. O compositor me entrega a música pronta e eu devolvo com a letra. A letra em cima daquela nota, tudo certinho e tal... Quando faço sozinho, por vezes durante a feitura da música a letra vai surgindo, mas sempre em função da música. Nunca começo pela letra, não sei fazer isso.

Na prosa sente-se mais livre?

Sinto-me mais livre. Se bem que, na prosa, tenho a impressão que se poderia reconhecer uma vocação musical. Eu sinto necessidade que a minha prosa corresponda a um rigor musical. No sentido de ter uma certa cadência, ritmo. Muitas vezes mudo uma frase, uma palavra, e não paro enquanto não me satisfizer musicalmente. Não que eu fale a frase em voz alta ou vá cantar aquilo. Mas há uma exigência quase musical. Agora, na criação de prosa, evidentemente há que haver uma lei narrativa. Se bem que muitas vezes a gente supõe que não, ou a gente não quer. Mas aí, acho que é um pouco a inveja que a prosa tem da poesia. Eu, na verdade, o que menos me atrai na escrita de um romance é a história. Me interessa mais trabalhar com a forma, a forma de contar aquela história. A história em si não é nada, muitas vezes não é nada.

Neste seu livro sente-se muito isso. Os cortes, as repetições. Mesmo o facto de os capítulos serem curtos. Mas, provavelmente, por ser músico, não precisa de ler alto.

É uma música que está dentro da cabeça. A cabeça pensa a música, não precisa de cantar para perceber que música é aquela. Os capítulos são todos feitos de um parágrafo só. Os capítulos são parágrafos. E há um desejo que sejam um pensamento fluente, que não haja nenhuma interrupção. Uma coisa vai puxando a outra, como se fosse um desafogo daquele velho falando, falando, até... até ele cansar. Pá! (risos) Aí retoma o segundo parágrafo e vai, vai, vai, mesmo que não tenha interlocutor, mesmo que os interlocutores sejam imaginários ou que estando ali não falem. Ele não quer saber ou pode ser surdo. Ou então fala sozinho...

E relê os seus livros depois de publicados?

Não. No caso, fiquei com o velho durante um ano e meio. Durante aquele tempo, você vive com aquilo, depois termina e diz: tá bom! É o melhor que eu posso fazer. Um pouco como: agora posso morrer... Não posso morrer, não (risos). Mas há essa necessidade de se libertar.

Disse há pouco que uma história pode ser nada. A propósito disso, porque já vi o seu livro anunciado como um romance sobre a história do Brasil, e eu, confesso, com honrosas excepções, torço um pouco o nariz à ideia do romance histórico...

Também eu, também eu. Acho mesmo uma coisa meio chata...

...mas depois comecei a ler, e as memórias do velho Eulálio, imaginando que seriam outras, se a solidão, a raiva e a força dele se mantivessem, o que ele, no concreto, recorda, quase seria irrelevante.

A história do Brasil vai pontuando um pouco. O passado do pai, do avô, como a própria história do Rio de Janeiro que se vai transformando junto. Ele vai envelhecendo, e o Rio, de certa forma, também vai perdendo a importância que tinha. Mas eu não pretendo contar a história do Brasil. Agora, há elementos ali, personagens da política, por exemplo, que dão um pouco a entender o que eram, enfim, as mazelas brasileiras, e que se perpetuam até hoje. A confusão entre o público e o privado, um tema que o meu pai aborda em "Raízes do Brasil", a natureza conciliadora do brasileiro, as formas de nepotismo, essa maneira quase familiar de se tratar a coisa pública... Coisas que já foram ditas e reditas. Isso está lá. Mas talvez porque o meu pai é historiador, e as pessoas imaginam que eu seria muito influenciado por ele, deu-se uma importância maior do que a que eu acho que a história do Brasil tenha no livro.

Porquê "Leite Derramado"? Lembrou-me o "não chorar sobre leite derramado", mas depois fui achando cada vez mais que a expressão teria antes a ver com as mulheres retratadas, com a Matilde... Há uma ideia de maternidade...

Mas tem, claro. Tem essa ideia de maternidade o tempo todo, e o título me ocorreu exactamente durante uma cena que está lá, que é o leite derramado, literalmente derramado... Eu ainda fiquei um pouco hesitante por causa justamente desse dito vulgarizado, que parece um pouco título de auto-ajuda (risos). Mas depois pensei que não podia ser outro.

A propósito deste seu trabalho, vários críticos falaram de Machado de Assis. É leitor de Machado?

Não especialmente. O Machado, eu li quando tinha 15 anos. Mas como em 2008 se comemoraram os 100 anos da morte dele, pode ser que isso tenha reavivado em mim alguma coisa do "Dom Casmurro". Só li esse e o conto "O Alienista". Eram deveres da escola. Mas algum parentesco há-de haver. A gente não sabe.

Por falar de brasileiros consagrados. Quando disse na FLIP que não sabia o que seria mais importante, se Guimarães Rosa se João Gilberto, onde é que queria chegar?

Eu estou reagindo a um certo tipo de preconceito, que é semelhante a um preconceito de classe em relação à música popular. No Brasil, eu acho isso um absurdo. Então, é uma tentativa de me embaraçarem quando dizem, por exemplo, que em Paraty vai estar o cantor Chico Buarque. Acham que eu me sinto diminuído com o 'cantor'. Como se o cantor quisesse ser escritor. Eu já disse várias vezes que não sou, não quero ser escritor, não faço questão de ter essa toga, essa carteirinha, de pertencer a esse clube. O meu mundo é o mundo dos músicos. E não acredito nessa hierarquização, não acredito que o escritor pertença a uma classe superior a um compositor de música popular ou a um cantor no Brasil. E isso existe muito. Tem 50 anos que Vinicius de Moraes foi expulso do Ministério das Relações Exteriores porque era um boémio e cantava... Há 50 anos que, de certa forma, ele desistiu da poesia culta para se dedicar à música popular. E ainda hoje há uma certa má vontade... 50 anos! Pôxa! Para a formação cultural do brasileiro, não sei se Guimarães Rosa, que é o meu escritor preferido, é mais importante do que João Gilberto. Sinceramente, não sei. Os literatos não gostam que se diga isto, vão ficar escandalizados, mas eu não digo para provocar. Estou reagindo a uma provocação, talvez, mas sem intenção de épater... o literato (risos). Digo por liberdade. Afirmo e confirmo.

Voltando ao livro, como é que lhe apareceu o velho Eulálio?

Antes de aparecer o velho, apareceu o tempo do velho. O passado. Eu comecei-me a interessar por aquele princípio do século. E, por algum motivo, comecei a querer criar uma acção por volta dos anos 20. Comecei a ler sobre isso. A ler sobre um navio, o "Lutécia", como eu contei em Paraty e é verdade. Aliás, continuo a falar verdade, não estou mentindo (risos). E depois houve uma cantora brasileira que lançou um disco de músicas minhas, com uma música que eu nunca mais tinha ouvido, 'O Velho Francisco'. Eu já tinha um velho, pois, um outro, um antigo escravo delirando num asilo, inventando passados gloriosos, fui isto, fui aquilo... E isso aí foi um pouco a chave do meu personagem, que é um velho inteiramente diferente, mas enfim, trata-se de um velho a relembrar factos, políticos ou não, da sua infância, da sua juventude e tal. Achei que havia nisso algo interessante como forma de narrativa. Um velho rememorando, às vezes, tem uma forma moderna de contar, essas idas e vindas, esse tempo fluido... Eu presto atenção à conversa de velhos, me interesso por isso. Por essa memória selectiva, as fugas, as tergiversações, mesmo aquelas mentirinhas ou lapsos de memória, coisas que voltam não exactamente como eram...

E velhos como ele ainda existem? Com aquela visão classista e tão reaccionária, uma visão que nem sequer é ideológica, vem das tripas: as coisas são assim!

São assim! Eu conheço isso. Conheço por dentro. Pessoalmente. Eu ouvi esse tipo de coisa a vida inteira. Claro que as coisas se transformaram. Se bem que esse pensamento também ficou um pouco disfarçado. No fundo, não se transformou tanto. Transformou-se em relação, por exemplo, a preconceito contra imigrantes, filhos de imigrantes. Isso existia. Hoje em dia, ninguém põe restrições no Brasil a um sujeito com sobrenome italiano ou a uma família árabe estabelecida. Na minha juventude, era comum referir-se filho ou neto de italiano como carcamango, os sírios-libaneses como turcos, de modo depreciativo. Os casamentos, vamos dizer, entre famílias tradicionais e filhos de emigrantes, como aparecem no livro, eram mal vistos. Isso hoje não existe mais... Em relação aos emigrantes brancos. Em relação aos pretos e aos mulatos ainda existe. Há uma pesquisa, disse-me no outro dia o pessoal da Universidade de São Paulo, que é muito interessante. A pergunta é: você tem algum tipo de preconceito rácico, de classe, de sexo e tal? Não! 97% não! Você conhece alguém próximo que tenha preconceito? 99% sim! (risos)

Alguém está a mentir!

A conta não dá. Mas é isso mesmo. Esse velho fala como um velho de 100 anos, pensa como um velho de 100 anos, e eu procurei entrar na cabeça dele.

E ele já se foi embora? Porque em Paraty disse que o velho continuava por aqui feito fantasma. Que ter partido a sua perna há pouco tempo talvez tivesse resultado de um empurrão dele...

Eu, na verdade, quebrei a perna jogando futebol. De qualquer forma, estou despedindo ele hoje (risos). Com você. Espero que o leve para Portugal, e eu me pretendo dedicar a outras coisas.

Por falar de Portugal, e antes de me ir embora com o Eulálio. Tem algum contacto com o que lá produz culturalmente?

Há hoje uma penetração maior da cultura portuguesa no Brasil do que há dez anos. Os cantores portugueses eram uma raridade. Conhecia-se a Amália Rodrigues e o Carlos do Carmo. A partir dos Madredeus, talvez por causa do filme do Wim Wenders, passou a haver um interesse que não existia antes. Na literatura, há o José Saramago, o Lobo Antunes. No cinema, o Manoel de Oliveira...

O Manoel de Oliveira é o nosso Niemeyer...

É isso aí (risos).

06/08/2009

Entrevista dada por mim ao "Blog da Dilma Rousseff" no 5 de Agosto de 2009


1- Como você está vendo o momento atual no Senado Federal?

Como a oposição já sentiu que não retomará o poder pelo voto direto e democrático, tenta, através do golpe no senado, tornar o Presidente Lula vulnerável. O que não é novidade. A oposição já manobrou, elegendo e derrubando o antigo presidente da Câmara, o Severino, e o do senado, o Renan Calheiros. Agora recorre à mesma tática. A diferença é que no momento o PMDB, juntamente com o Lula, resolveu enfrentar a oposição pseudo-moralista. O que já era tempo. Afinal, nós blogueiros há muito 'gritamos' para que o governo se posicione, mostre coragem para enfrentar de peito aberto a oposição e seu braço midiático.

Sobre a 'surpresa' dos oponentes de Lula ao seu apoio a Sarney, não me impressiono. Pois se não defendê-lo, será apenas mais um corrupto que cairá. Como o senado é composto por corruptos, no final nada sobrará. E como o Lula precisa do senado para governar, não faz sentido tirar um para colocar outro, com histórico semelhante, mas sendo da oposição. Por isso, menos mal um corrupto que mantenha a governabilidade, do que um corrupto escolhido para atrasar a vida dos brasileiros e do Brasil.


2- O que você achou da declaração do presidente Lula, que os que criticam o Bolsa Família, são uns imbecis, ignorantes?

Nada mais correto do que a afirmação do Presidente. A oposição gostaria que o povo permanecesse 4 anos com fome para quando as eleições se aproximasse, eles, da oposição, surgissem do nada, oferecendo-lhes um prato de comida ou uma dentadura em troca do voto. Bato sempre na mesma tecla. Discordo de todos que afirmam que o Bolsa-Família é populismo e assistencialismo. Não! O Bolsa-Família deve no futuro mudar de nome e se tornar um direito adquirido. O Estado tem obrigação de ajudar sua população. Cidadania não se adquire de barriga vazia. A barriga vazia, juntamente com a televisão, torna o homem apático.

Quando penso na oposição ensandecida ao Bolsa-Família, lembro-me dos eventuais bazares promovidos pela classe média no Rotary Club para distribuição de roupas e alimentos. O espírito altruísta emerge nesses momentos, calando a consciência dos que tem comida na mesa todos os dias. É o chamado Espírito Daslu. Mas, e depois de passado o entusiasmo e a destribuição, a classe média se pergunta como as pessoas pobres sobrevivem? Ou simplesmente se esquecem dos miseráveis e se recolhem diante dos seus aparelhos de televisão para vivenciarem suas alucinações e alienações através das novelas? Sou da opinião de que a ajuda aos carentes deve ser feita de maneira sistemática e constante e independente do governo do momento.

Se não existisse na Europa ajuda aos necessitados, guerras já teriam sido desencadeadas.


3- Como você que está fora do Brasil, avalia a mídia, a imprensa brasileira?

A mídia grandona está em crise em todo o mundo. Aqui na Alemanha, por exemplo, tudo que ela escreve ou diz sobre o Estado de Israel não é crível. Quando se refere à Esquerda, o faz com deboche. Pauta o Parlamento. No Brasil não é diferente. O que escreve e diz sobre o governo Lula e quem o apoia, é falacioso. Tem porém um adicional: é eminentemente golpista e antipatriótica. Seu desejo é derrubar o governo Lula e colocar em seu lugar a direita, para que essa venda o que restou do patrimônio nacional.

Precisamos ficar atentos para os argumentos da mídia que tenta confundir sua liberdade de destruir vidas através da mentira, com a democracia e a liberdade de expressão. Se a mídia, está em crise por falta de credibilidade, os grandes e pequenos blogues e sites estão aí mesmo para desmontar a farsa.


4- Qual a avaliação que você faz dos políticos da oposição ao governo Lula?

A oposição é fundamental para a fiscalização dos mandos e possíveis desmandos feitos pelo governo. Quando responsável, mantem o governo na linha, sob controle. Todavia, a oposição atual é caótica e sem propostas. Não sabe para que veio, não sabe para que serve. Não é confiável. Esperança dela melhorar eu não tenho. Somente as novas gerações serão capazes de tirá-la do estado de primitivismo em que se encontra.


5- Você acha que o Brasil está preparado para uma mulher na presidência?

Certamente! E a Dilma Rousseff tem tudo para ser uma excelente Chefe de Estado. Além da competência demonstrada, tem o Lula ao seu favor para retirar algumas pedreiras de seu caminho. Digo pedreira porque a mídia não lhe dará um segundo de trégua nos seus futuros 8 anos de governo.

Por favor não esqueça de fazer suas considerações finais, o espaço é todo seu.

Se a campanha de 2006 para a Presidência da República foi uma guerra composta de batalhas diárias, das quais os blogues foram muito importantes para desmontar as mentiras construídas pela mídia e a oposição, a eleição de 2010 será inesquecível. Com as grandes estatais e o próprio Lula aderindo aos blogues, a mídia sabe de antemão que a campanha não será um passeio. A cada dia precisamos menos da intermediação dos jornais e televisões para nos informarmos. E eles sabem disso. Eles sabem de antemão que perderam a guerra. Por isso o desespero. Glória Leite

*Glória Leite é a editora do blog Brasil, Mostra a Tua Cara.

Original aqui

04/08/2009

Vamos ver se o governo inglês fala a verdade

Ministro britânico diz que envio de lixo ao Brasil é inaceitável

por Sabrina Craide - Repórter da Agência Brasil

O ministro de Energia e Mudanças Climáticas do Reino Unido, Ed Miliband, disse hoje (3) que as agências ambientais de seu país estão trabalhando para responsabilizar quem mandou os contêineres de lixo enviados ilegalmente ao Brasil.

“Isso é completamente inaceitável. Entendemos os sentimentos do Brasil, e nossas agências ambientais vão se certificar de que esse problema será tratado seriamente e que todas as ações apropriadas estão sendo feitas contra as pessoas responsáveis por isso”, declarou Miliband. Ele se reuniu hoje com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, em Brasília, mas garantiu que o tema não foi discutido no encontro.

Os 40 contêineres com lixo do Reino Unido chegaram ao Brasil entre fevereiro e maio deste ano e continham materiais nocivos como pilhas, seringas, cartelas de medicamentos e embalagens de preservativos. Na manhã de hoje, um navio com o lixo enviado ilegalmente ao Brasil deixou o Porto de Rio Grande, no Rio Grande do Sul.

O ministro britânico também se reuniu hoje com o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão. Miliband está no Brasil desde o último sábado (1º), com o objetivo de debater os esforços para um acordo global que vai limitar as emissões de gases de efeito estufa, que deverá ser firmado em dezembro deste ano, durante a reunião do COP-15, em Copenhagen, na Dinamarca. O novo tratado deverá substituir o Protocolo de Quioto, que vence em 2012. Para Miliband, a liderança do Brasil é fundamental para que o acordo seja concretizado.

Antes de chegar em Brasília, o ministro britânico foi ao município de São José do Xingu, no Mato Grosso, onde conversou com grupos indígenas sobre as soluções para evitar o desmatamento na Amazônia. Miliband também conheceu a planta de bioetanol em Piracicaba. Segundo ele, o Brasil tem uma visão diferente em relação aos biocombustíveis.

“Temos que ser conscientes em relação aos biocombustíveis, porque eles podem ter impactos negativos. Mas o Brasil também está mostrando impactos positivos que podem ter nas mudanças climáticas. Então, precisamos ter um balanço nesse assunto”, afirmou Miliband.